O dia é corrido e a noite passa como um piscar de olhos, tantos afazeres e projetos que programamos para um único dia, para ao final começar tudo de novo no dia seguinte.
Nossas ambições nos movem, criamos rotinas onde sabemos que, se as seguirmos, com certeza realizaremos nossos sonhos. Mas como realizar tudo em dias cada vez mais corridos e estressantes? Em uma rotina cuja ideia principal foi a de melhorar (física, mental, espiritual), acaba se tornando a principal fonte de frustração. Nos sentimos estagnados, não vemos avanço e parece que tudo é em vão. Vivenciamos um estado de incapacidade, não enxergamos forças para vencer o desafio ou quebrar o ciclo.
Quando começamos um relacionamento mais profundo com Deus, nossas falhas e defeitos são expostos à luz, onde não há sombra para escondermos, ficando cada vez mais forte a vontade de arrancar tudo como se fosse uma grande massa cheia de impureza, escura e grudenta. Mas ao mesmo tempo que essa luz traz à tona os erros, é também responsável pela fonte de calor que nos abraça e nos consola com palavras de um amor incondicional, nos afirmando sempre que somos filhos e que está cuidando de nós.
Quem já possui um certo nível de relacionamento com Deus e encara situações parecidas com essa entende o que o apóstolo Paulo diz ao povo romano em Romanos 7:18-20:
Romanos 7:18-20
[18] Sei que nada de bom habita em mim, isto é, na minha carne, porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não o faço. [19] Pois não faço o bem que desejo, mas continuo praticando o mal que não desejo. [20] Ora, se faço o que não desejo, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.
Vivenciamos uma verdadeira "guerra civil" em nossos corações, uma disputa incessante pelo controle entre a carne e o espírito. Nesse trecho, Paulo nos mostra a dualidade que temos em nossas almas, que nos faz escolher entre adorar (obedecer) a Deus ou saciar nossos desejos carnais, tratando os planos do Senhor, que são perfeitos e agradáveis, com arrogância e desdém.
Sabemos exatamente o que está nos prendendo e como podemos sair desses vícios, visto que essa dualidade da alma evidencia a diferença do certo e do errado, o que é do espírito e o que é da carne, porém não o fazemos. A indignação não vem dos nossos erros e vícios, mas sim da tentativa de sair deles; a sensação de incapacidade é não ter a força de sair do confortável. E isso nos traz à mente que não somos dignos da graça de Deus, que não somos dignos de seu amor, pensamos até que nossas orações clamando socorro são repetitivas e cansativas, se frustrando até mesmo na forma que conversamos com Deus.
Em meio aos problemas da vida, que por sinal já são muitos, temos essas frustrações internas que nos corroem por dentro, nos enfraquecendo fisicamente e principalmente espiritualmente; porém, saber que Deus está cuidando de cada detalhe é a única certeza que se tem diante de tanta bagunça. E essa certeza é a verdade que nos lava todos os dias, que nos incentiva a não desistir e focar inteiramente Nele, mesmo não sendo merecedores.
Um exemplo de alguém que estagnou diante de adversidades externas e internas foi o profeta Elias, que tinha propriedade no seu falar e no seu agir, pois tinha certeza de seu relacionamento profundo com Deus. Em 1 Reis 19:1-13 vemos um momento de fraqueza e aflição de Elias.
Reis 19:1-13
[1] Ora, Acabe contou a Jezabel tudo o que Elias tinha feito e como havia matado todos os profetas à espada. [2] Por isso, Jezabel mandou um mensageiro a Elias para dizer-lhe: "Que os deuses me castiguem com todo o rigor se amanhã a esta hora eu não fizer com a sua vida o que você fez com a deles". [3] Elias teve medo e fugiu para salvar a própria vida. Quando chegou a Berseba de Judá, deixou o seu servo [4] e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou aonde havia uma giesta, sentou-se debaixo dela e orou, pedindo a morte: "Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados". [5] Depois, ele se deitou debaixo da giesta e dormiu. De repente, um anjo tocou nele e disse: "Levante-se e coma". [6] Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeceira, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo. [7] O anjo do Senhor voltou, tocou nele e disse: "Levante-se e coma, pois a sua viagem será muito longa". [8] Então, ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até chegar a Horebe, o monte de Deus. [9] Ali entrou em uma caverna e passou a noite. Eis que a palavra do Senhor veio a ele: "O que você está fazendo aqui, Elias?" [10] Ele respondeu: "Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, o Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, despedaçaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando tirar a minha vida". [11] O Senhor lhe disse: "Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar". Então, veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. [12] Depois do terremoto, veio um fogo, mas o Senhor não estava nele. Depois do fogo, veio o som de um suave sussurro. [13] Quando Elias ouviu isso, cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou à entrada da caverna. Então, uma voz lhe perguntou: "O que você está fazendo aqui, Elias?"
Ao receber a mensagem de Jezabel, Elias largou tudo e fugiu para o deserto na tentativa de não ser encontrado; neste momento vemos uma pessoa angustiada, ansiosa e paralisada, um desespero tomava conta de sua mente e seu coração. Elias se entristeceu profundamente, lamentava e clamava pela própria morte, a fim de acabar com seu fardo de uma vez por todas.
Trazendo uma analogia, as ameaças são as questões externas, aqueles problemas que para nós são como um fardo muito pesado que nos desmotivam e nos paralisam. Achamos não ter saída de questões familiares, financeiras, dentre outros exemplos de desafios que queremos superar. O medo estava tomando conta do profeta; a ansiedade, desânimo, angústia, raiva — essas são as questões internas, o que nos corrói por dentro, nos fragilizando e desviando o nosso foco; pensamos estar sozinhos e ficamos relutantes em compartilhar nossas dores.
No decorrer da história de Elias, vemos algo interessante e que é muito importante pontuar: apesar de perder o foco e ter largado tudo para fugir, em nenhum momento Deus o deixou; pelo contrário, a todo momento esteve com ele, o alimentando e fortificando para uma viagem muito longa (Ver 1 Reis 19:7). Não podemos esquecer diante de tanto caos que Deus sempre está e sempre estará cuidando de nós, assim como foi com o profeta, Ele estará cuidando de ti continuamente apesar de tudo parecer desmoronar. Essa verdade precisa estar enraizada em nossos corações, ser repetitiva para nunca a esquecermos, pois a mente é fraca sem a blindagem apropriada; torne o amor de Deus algo rotineiro, a mesma rotina que uma vez o entristecia a transforme em algo que relembre todos os dias o amor de Deus, se aprofundando em um relacionamento que te edifica, e as demais coisas vos serão acrescentadas (Ver Mateus 6:33).
Elias deu continuidade a sua fuga; mesmo alimentado e fortificado por Deus o suficiente para seguir viagem por quarenta dias e quarenta noites, ainda manteve seu medo, se encontrando em uma caverna, onde passou a noite.
Quando o medo nos consome e não vemos escape nem alguém para nos socorrer, buscamos nos isolar, nos esconder ou simplesmente ignorar tudo o que nos incomoda. Elias estava se escondendo, tentando fugir de seus perseguidores e de seus deveres, mas o que o difere de muitos é o que nos esquecemos de fazer diariamente: depositar nossas ansiedades e preocupações em Deus. Elias estava sensível e apresentou suas preocupações ao Senhor, confessou tudo o que o paralisava e o sufocava para o Senhor, que o chamou para fora para mostrar sua grandeza e sua compaixão. A obediência do profeta é algo a se contemplar; visto todas as acusações, todas as ameaças e como isso o abalou, Elias poderia ficar na caverna com medo de seus perseguidores — o choque de praticamente uma nação inteira ir contra ele e ainda querer o matar já é motivo o bastante para ter medo e se esconder de tudo —, mas ao ouvir a voz de Deus ele preferiu obedecer, mesmo sabendo que aquilo iria o expor e provavelmente ser assassinado. E isso é o que Satanás quer: nos paralisar a ponto de não fazermos a vontade de Deus. Se Elias não saísse da caverna, ele não veria Deus passar e não iria presenciar o poder do Deus que estava com ele e que agora está conosco, habitando dentro de nós.
Agora fora da caverna, Elias se depara com o poder e mansidão de Deus. Mesmo tendo a certeza de seu relacionamento com Deus, o profeta se isolou e perdeu seu foco, parecendo só ter olhos para o caos a sua volta; o Senhor chamou Elias a se expor à sua presença para o relembrar de que não está sozinho, ao mesmo tempo que mostra sua força e amabilidade para o profeta e a nós.
Ao ouvir o som de um suave sussurro, se envergonhou, cobriu-se com sua capa e ficou à entrada da caverna. O pecado nos envergonha, ficamos constrangidos quando percebemos que estamos vivendo uma vida que nos separa de Deus.
Perceba que Elias só se envergonhou ao ouvir o sussurro em uma brisa suave; isso nos aponta que contra seus inimigos demonstra um poderio ilimitado, mas para os seus aliados (filhos) uma suavidade e mansidão no falar. Ao depositar nossas preocupações em Deus, somos acalentados com seu amor e nossos inimigos tremem perante seu rugido poderoso; mesmo com todos os nossos erros e falhas, Deus nos ama especialmente. Fomos criados para sermos amados, um amor que nos constrange e que nos convence a entregarmos nossas vidas a Ele, pois sabemos que sua vontade é perfeita e agradável. Contudo, como foi dito anteriormente, não é fácil sair do confortável; assim como Elias, precisamos ser relembrados de quem nos capacita e de quem nos amou primeiro. Volto a dizer: precisamos ter uma rotina que relembre o amor de Deus, ser intencional na busca desse amor, a ponto de vê-lo em tudo, das coisas pequenas às grandes, das simples às complexas, ter isso enraizado em nossos corações para não perdermos o foco e nos isolarmos assim como fez Elias.
Nossas ansiedades e aflições podem nos consumir, como alguém que está em um barco prestes a naufragar, com as águas invadindo cada vez mais é difícil não entrar em pânico e tentar enxergar outra coisa. Porém, já recebemos uma palavra de vitória: em Cristo Jesus somos mais que vencedores, em Romanos 8:35-39 vemos:
Romanos 8:35-39
[35] Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? [36] Como está escrito: "Por amor de ti enfrentamos a morte o dia inteiro; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro". [37] Mas em todas essas coisas somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou. [38] Pois estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os demônios, nem o presente, nem o futuro, nem poderes, [39] nem altura, nem profundidade, nem ninguém em toda a criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, o nosso Senhor.